Só há uma coisa pior do que não controlarmos a nossa vida. É sermos forçados a vivê-la com gente que nos detesta.
Conquista-se muito todos os dias, isso até a ginástica começar a criar mais lesões do que campeões.
Isto não é o mundo real. Isto é o meu mundo. Não tens de gostar de mim nem disto. Mas tens de ter respeito.
Existem regras de treino, e o motivo porque existem regras e treinadores é porque isto, é a ginástica.
A ginástica diz-nos que não, durante todo o dia. Goza connosco, sem parar, a dizer-nos que somos idiotas. Que somos loucas. Para quem gosta de correr a toda a velocidade contra um objecto parado, o cavalo é o ideal. Para quem gosta de arrancar bocados de pele das mãos do tamanho de moedas, as paralelas assimétricas são perfeitas. Porque a única coisa mais gira do que as feridas, é quando as feridas ganham feridas. É super-sensual. E no esquema, em praticável, estão a brincar? Quem é que não gosta de desfilar de fato bem apertado nas nádegas e a fazer uma coreografia mesmo á maneira? É fantástico.
Para quem gosta de cair, a ginástica é o ideal. Caímos sobre a cara, o rabo, as costas, os joelhos.. e o orgulho. Ainda bem que não me importo de cair, adoro.
Dizem que quem não sabe fazer, ensina.
O único motivo porque faço estes movimentos é porque alguém algures disse: Não me interessa se isto é de loucos, nem se magoa. Vou fazê-lo e pronto. Vou escalar esta montanha incrivelmente alta. Ora vejam. Quando se é o primeiro a escalar uma montanha na ginástica dão-lhe o nosso nome.
Quando fico nervosa faço o meu ritual. Olho para o júri e imagino-os naqueles casacos chiques a tentarem fazer o que eu faço.
Não fugas, termina isto, termina-o por ti!
O mundo da ginástica, tal como o mundo real, pode ser muito implacável. Talvez haja demasiadas acusações para que ela possa começar de novo a competir comigo ou seja com quem for.
Todas as miúdas querem o mesmo aqui. Justificar a loucura que fazemos, chegar ao pódio e ser a melhor.
Talvez o júri seja tão duro por uma única razão. Eles queriam mesmo era ser como nós e toda a gente sabe que eles têm é inveja.
E quando se fala em ginástica, a consistência é que é importante.
Há coisas que desejamos antes dos grandes momentos. Desejamos que os amigos estivessem aqui. Desejamos que os pais fossem diferentes. Desejava que houvesse alguém que percebesse o que se estava a passar, que olhasse para mim e nos dissesse que não somos doidas. Que não somos estúpidas. Alguém que dissesse “tenho orgulho em ti, e apoio-te em qualquer situação”.
A ginástica não está ali para nos rejeitar ou avaliar, isso só nós podemos fazer. E não podemos olhar para trás e pensar que tudo tem a ver com júris, pais e treinadores. Tem a ver connosco, a para nós. E isso sim me pareceu um absoluto primeiro lugar.